O Levante da Juventude (The Uprising of Youth)

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O levante da juventude

O último levantamento do Banco Mundial diz que 54,7 por cento da humanidade vive em estado de miséria ou pobreza extrema. São 2 bilhões e 800 milhões de pessoas sobrevivendo com menos de 2 dólares por dia, 310 milhões delas com menos de 1 dólar. Nas estatísticas oficiais, essas pessoas – mais da metade da população mundial – são diferenciadas como “pobres” e “miseráveis”. Contra realidade tão chocante vem se organizando um movimento de protesto nos quatro cantos do mundo. À frente, comunicando-se via Internet e usando nas ruas o próprio corpo como arma, jovens de todas as nacionalidades denunciam os responsáveis por tamanho e crescente estado de desigualdade. Um quadro dessa revolta é exposto aqui.

Sérgio Kalili Sérgio Kalili é jornalista e está morando nos Estados Unidos.

A década de 90 ficou marcada pelo maior enriquecimento de grandes conglomerados americanos e europeus e maior empobrecimento de países que já eram pobres. O projeto neoliberal, chamado globalização e patrocinado por grandes corporações e governos, impera sobre mais de cem países no mundo sem cumprir o discurso inicial de acabar com a pobreza gerando riqueza. Por isso, vem sofrendo crescente oposição em todas as classes sociais e categorias, do campo à cidade. Na boca dos opositores, globalização virou “neocolonialismo”, “globalitarismo”, “vandalismo” ou simplesmente “roubo”. Ecologistas, operários, estudantes, professores, sem-terra, cientistas, agricultores, pequenos empresários, anarquistas, socialistas, comunistas estão, juntos, construindo um movimento internacional. Identificaram o inimigo – as corporações transnacionais que ostentam a bandeira do “livre comércio”.

Não são só eles que estão nomeando o responsável pela miséria. A CIA (Agencia Central de Inteligência), em 2000, já se preocupava, antes mesmo do 11 de setembro: “A economia global vai espalhar conflitos e estabelecer uma diferença maior entre vencedores e perdedores. Grupos excluídos enfrentarão profunda estagnação econômica e fomentarão extremismos políticos, étnicos, ideológicos e religiosos”. E o Banco Mundial declarava em 1999: “A globalização parece aumentar a pobreza e a desigualdade (…). Os custos de ajustamento para maior abertura são suportados exclusivamente pelo pobre”. A ONU dizia no mesmo ano: “O processo (globalização) está concentrando poder e marginalizando o pobre”.

O movimento mundial antiglobalização tem heróis, jovens e velhos, orgulhosos de usar o próprio corpo em protesto. O militante profissional Jaggi Singh, ex-estudante de história da filosofia em Montreal, Canadá, é um deles. Um casaco preto com capuz cobre-lhe todo o corpo, usa óculos e sempre está um lance adiante do que fala. Não perguntei, mas, pelo nome e aparência, seus pais devem ter imigrado da Índia. Muitos dos heróis que vivem no Primeiro Mundo são filhos de imigrantes do Terceiro Mundo ou de países que são ou foram socialistas. Jaggi faz parte de vários grupos e da Convergência Anticapitalista (CLAC), uma coalizão de anarquistas e outras linhas políticas contra o capitalismo. “Temos a tendência de manter o foco em alguém que joga uma pedra numa janela ou chuta um policial, mas deveríamos nos focar na violência estrutural que testemunhamos diariamente. Jogar uma pedra na janela da Nike é uma coisa, estruturar um programa socioeconômico com o propósito de perpetuar a miséria é que constitui violência.”

Chegou à casa do inimigo o movimento. Passou a fazer mais barulho, bater com mais força quando se postou diante da porta da frente. Seattle é um símbolo por causa disso. Em dezembro de 1999, 50.000 pessoas se agruparam em protesto ao terceiro encontro anual da Organização Mundial do Comércio (OMC). Trabalhadores, estudantes, comunistas, anarquistas… Cercaram o centro de convenções e hotéis onde os delegados se hospedavam. Sentados, deitados, bloquearam a passagem e atrasaram as reuniões. A polícia respondeu com gás lacrimogêneo, empurrões, pontapés… Em abril de 2000, dessa vez em Washington, se juntaram para protestar contra as reuniões de primavera do FMI e Banco Mundial. Depois de cercar o lugar das reuniões por um dia, quinhentas pessoas foram detidas. No mesmo mês do ano seguinte, 60.000 manifestantes protestaram em Quebec contra o Encontro das Américas, onde se negociava a criação da ALCA. Eram milhares de pessoas diante do “Muro da Vergonha”, uma cerca de 3 metros de altura e 4 quilômetros de comprimento, erguida para manter a manifestação longe dos chefes de Estado reunidos. Dessa vez, Jaggi passou duas semanas na cadeia, acusado de construir uma catapulta – ela lançava sobre o “Muro da Vergonha” ursinhos de pelúcia e bonecos Barney, sorridentes, pintados com pontos cor-de-rosa.

O jovem trotskista Ashley Solitis, da International Socialist Organization, não perde um protesto. Ele também esteve em Quebec. “Sentimos que poderíamos impedir a reunião porque a ação direta foi muito grande, com suporte da classe trabalhadora, e parte do ‘Muro da Vergonha’ foi abaixo. Isso deu ânimo às pessoas, mas em Gênova começaríamos a ver o que o capitalismo faria para arrochar, cair em cima e eliminar o nosso direito de discordar.” Ashley anuncia que Lênin e todos os revolucionários estão de volta: “Trotski desenvolveu a teoria de como você pode ter revoluções em qualquer parte do mundo, porque o capitalismo subordina todos os aspectos da vida segundo sua lógica”.

Mas não é só o velho e “bom” capitalismo, é mais do que isso, é o “pactalismo”. Falo do cartaz de um manifestante que vi, uma brincadeira com as palavras capitalismo e pacman, aquele joguinho eletrônico onde uma boca insaciável devora tudo o que aparece pela frente.

O estudante sul-africano Craig Webster, de 23 anos, da união informal de grupos e coalizões chamada Another World is Posible, foi detido sete vezes nos últimos anos e levou uns bons cascudos em Seattle. “É uma luta, meu amigo, não sofremos nada em comparação com povos de outras partes do mundo. É duro, requer comprometimento, desejo de colocar seu corpo na linha de frente por um mundo que você acredita ser possível.” Experiente e calejado, ensina: “Aprendi sobre solidariedade imediata, a força de resistir, dar apoio a quem é preso, a solidariedade da cadeia, a recusa de se mover mesmo sendo espancado pela polícia”. Em uma de suas passagens pelo xadrez americano, Craig foi colocado junto com gangues de rua. “Uma das experiências mais fortes de minha vida. Entendi a vida deles, as condições que fazem da gangue o ambiente social mais poderoso de participação.”

O filho de iranianos Ehssan Vandaei, de 23 anos, anarquista, estudante de ciências políticas na Universidade de Berkeley – um dos grandes centros de resistência nos Estados Unidos -, com um grupo de pelo menos trezentos manifestantes antiglobalização, também viu o sol nascer quadrado. Posicionou o corpo na linha de frente e foi para a cadeia com o pulso quebrado pela polícia de Seattle.

O ecologista Patrick Reinsborough, americano de 29 anos, diretor-organizador da Rainforest Action Network, é um sobrevivente no sentido literal. “Tive gás pimenta seis vezes nos olhos, fui atingido por balas de plástico, granadas de choque (concussion grenades), supostamente não letais, mas que na realidade machucam bem.” Há dezesseis anos, ele e sua Rainforest vinham educando e trabalhando para que Seattle acontecesse. “As 50.000 pessoas que foram a Seattle reconhecem que a OMC é uma junta militar das corporações, é um Estado de corporações para dominar as comunidades locais. Por isso, colocar seu corpo na linha de frente e bloquear o encontro deles é se engajar em um ato de autodefesa global. Fiz isso, faço isso.” Reinsborough parafraseia um de seus ídolos, o famoso ecologista e naturalista americano Edward Abbey: “Sentimento sem ação é a ruína da alma”.

A história não é nova

Alguns grupos levaram quase trinta anos para identificar o inimigo, o que globalizadores (grandes empresários, altos executivos de corporações e aliados dentro e fora de governos) já sabiam nos anos 70. Então, ainda não havia condições de realizar um Fórum Social Mundial com 50.000 pessoas, como em Porto Alegre. Se bem que uma certa resistência já existisse: em 1972, em um encontro anual do Conselho das Américas, duzentas corporações americanas com interesses e negócios na América Latina levaram o tema “anticorporações” à mesa de discussões.

“Os neoliberais apresentam a globalização como algo ‘natural’, ‘evolucionário’ e ‘inevitável'”, diz Amory Starr, ativista anarquista e doutora em sociologia da Universidade do Colorado. Ela bate sem dó: “As corporações estão desmantelando fronteiras econômicas para realizar suas operações, abrindo novos mercados, homogeneizando sabores e gostos de consumo”. Amory recorre ao pensador alemão Herbert Marcuse ao dizer: “O capitalismo invade nossa identidade e nos engana ao fazer com que nos identifiquemos com nosso próprio consumo, ao identificar ‘liberdade’ como a liberdade de consumir, paz como o repúdio ao inimigo”.

“Na teoria, o FMI estaria apoiando instituições democráticas nas nações às quais dá ajuda. Na prática, mina o processo democrático ao impor sua política. Oficialmente, o FMI não ‘impõe’ nada, claro, mas todo o poder nas negociações está de um lado, o do FMI”, escreve Joseph Stiglitz, professor de economia da Universidade de Stanford, ex-economista chefe e ex-vice-presidente do Banco Mundial. Stiglitz critica a arrogância de seus colegas: “Quando o FMI decide assistir um país, despacha uma ‘missão’ de economistas. Esses economistas freqüentemente conhecem pouco do país que visitam; é mais provável que conheçam melhor o hotel cinco estrelas em que se hospedam do que as cidades”.

As inúmeras ONGs que formam o movimento antiglobalização já estão presentes em mais de sessenta países. Elas se internacionalizaram ou se associaram umas às outras. São centenas as ONGs e publicações criadas por todo o planeta para pesquisar, vigiar e denunciar as distorções criadas por um sistema desigual – Globalization Challenge Initiative, Friends of the Earth, Development GAP, Third World Network… Muitas com representações em dúzias de países.

Privatizando a água

A oposição cresce conforme os Programas de Ajustamento Estrutural (SAPs) criados pelo FMI e Banco Mundial batem no fígado e no estômago das populações, provocando falências de agricultores e empresários locais, ao propor o corte de subsídios e barreiras protecionistas mantidos em países do Primeiro Mundo, apesar do discurso de livre comércio, e ao aconselhar a redução de investimentos públicos em setores de serviços, educação e saúde. Globalizadores privatizam até a água, em nome dos SAPs. E tudo acontece em ritmo acelerado. “Uma folheada em históricos de dívida de quarenta países com o FMI, durante 2000, mostram que doze deles tiveram como imposição pelo Fundo o aumento nos preços e a privatização da água”, documenta a Globalization Challenge Initiative – Water Privatization Fact Sheet, 2001.

Conforme relatório do Sindicato de Empregados Públicos do Canadá, em 2000 a receita das maiores corporações de água, Vivendi e Suez Lyonnaise des Eaux (baseadas na França), foi de aproximadamente 12 bilhões de dólares e 9 bilhões, respectivamente. Os resultados do aumento de preço e das privatizações da água exigidos pelo Banco Mundial e FMI como condição de empréstimo foram sentidos por todo o globo. Por exemplo, em Zwazulu-Natal, África do Sul, quem era muito pobre para pagar teve o fornecimento cortado; só restou o rio poluído, o que provocou uma epidemia de cólera. Segundo o International Forum on Globalization (IFG), quando a terceira maior cidade da Bolívia, Cochabamba, foi “forçada” a privatizar o serviço de água por causa dos SAPs, o preço da água subiu 200 por cento entre dezembro de 1999 e janeiro de 2000, provocando protestos generalizados da população. “Os SAPs destroem qualquer tentativa de desenvolvimento sustentado de alimentos, transportes e indústria básica e levam o país a produzir para exportação”, escrevem Jerry Mander, Debi Barker e o economista, ex-membro da U.S. AID David Korten, diretores do The International Forum on Globalization.

Ano passado, um dos conselheiros do grupo de pesquisas do Banco Mundial, William Easterly, encarou com naturalidade a bronca dos movimentos contra a mão invisível do mercado. “Considere os fatos e ficará evidente que, depois de gastar 1 trilhão de dólares em ajuda desde 1960, o FMI e o Banco Mundial falharam em alcançar os resultados desejados. É fácil imaginar por que manifestantes fazem tamanha oposição a essas duas organizações.”

Os SAPs não funcionaram, não funcionam. O objetivo de acabar com a pobreza e levar crescimento ao mundo em desenvolvimento não saiu dos escritórios do FMI e Banco Mundial em Washington. Segundo a ONU, na década de 90, o grau de crescimento dos países em desenvolvimento, como um todo, sem contar a China, ficou mais baixo em 2 por cento ao ano do que na década de 70. Dados divulgados por ela mostram que o declínio econômico ou a estagnação estão afetando cem países, reduzindo os rendimentos de 1,6 bilhão de pessoas. O Banco Mundial reconhece que “existem mais de 100 milhões de pessoas pobres nos países em desenvolvimento do que uma década atrás”, sem contar a China. Diz também que “a expectativa de vida tem declinado em 33 países desde 1990”. O programa globalizante contribui para a morte a cada minuto de treze crianças famintas em quarenta dos países mais pobres do mundo, segundo a ONG internacional Drop the Debt. A oposição chia. “Quero a verdadeira globalização, que é a globalização da solidariedade entre mim, em Berkeley, e um trabalhador na Indonésia”, diz o anarquista Ehssan Vandaei.

O primeiro mártir

O movimento antiglobalização tem seu mártir em Gênova, julho de 2001, quando 200.000 pessoas protestam contra o encontro do G-8 – Carlo Giuliani, de 23 anos, é morto pela polícia com dois tiros. Tony Blair, que participava do outro lado, declarou: “Preferiríamos estar lá fora nos encontrando com as pessoas, mas não podemos porque alguns desses manifestantes são muito violentos”. George Bush: “Condeno o isolacionismo e protecionismo que dominam esses que tentam perturbar os encontros em Gênova”. Enquanto escrevo, uma amiga liga para contar que o jogo entre Barcelona e Real Madrid foi interrompido por causa de um protesto contra a globalização.

A reação é muito mais violenta nas vielas escuras do Terceiro Mundo. Em outubro de 1988, mais de duzentas pessoas são assassinadas na Argélia em protestos contra a alta de preços e do desemprego em decorrência da aplicação dos SAPs. Mais duzentas são assassinadas no Chade, de 1997 a 1998, em regiões produtoras de petróleo, por tropas do governo, “no esforço para trazer paz e estabilidade” – e limpar o caminho para um projeto petrolífero financiado pelo Banco Mundial no Chade e em Camarões. Seiscentas pessoas são mortas e mil feridas em 28 de fevereiro de 1989 na Venezuela, em revolta contra políticas impostas para satisfazer exigências do FMI e Banco Mundial. Em abril de 2000, oito pessoas morrem nas ruas da Bolívia quando mil camponeses fazem manifestação contra a privatização do fornecimento de água no campo. No mesmo ano, protestos contra o Banco Mundial, FMI e os SAPs resultaram na morte de mais de setenta pessoas em Trinidad-Tobago, Nova Guiné, Nigéria e Jordânia.

A política do “neocolonizador” sufoca diferentes culturas. Na Índia, mais de quinhentos fazendeiros de algodão cometeram suicídio, em 1999, por ter perdido sua fonte de sustento em razão das políticas impostas pelo FMI – retirada de subsídios e aumento de preços dos implementos agrícolas.

De acordo com o próprio FMI, 50 por cento das crianças haitianas menores de 5 anos sofrem de desnutrição e a renda per capita caiu de 600 dólares, em 1980, para 369 dólares hoje. O Quênia, auto-suficiente na produção de alimentos até os anos 80, agora, depois dos SAPs, importa 80 por cento da comida que consome. Anuradha Mittal, co-diretor do Institute for Food and Development Policy, da Califórnia, mostra quão desigual é o “livre comércio”: “Em El Salvador, por cada dólar pago pelo consumidor americano por um melão, os fazendeiros salvadorenhos recebem 1 centavo”.

O advogado ambientalista Richard Grossman, fundador e co-diretor do The Program on Corporations, Law and Democracy, resume a mudança trazida pela criação da OMC e seus acordos: é “a legalização da autoridade corporativa sobre todas as coisas que contam”.

A reconciliação dos indígenas

Para a socióloga Amory Starr, “a diferença entre colonialismo corporativo pós-moderno – esse que vivemos – e colonialismo moderno europeu é que as corporações soltaram as amarras e não são mais responsabilidade de nações. Elas avançaram, passaram de agentes do soberano para ser agentes soberanos responsáveis pela política de não-identidade. O colonialismo corporativo pós-moderno tem muitos dos elementos da versão nacionalista dos séculos 18 e 19, no sentido de que demanda modificações políticas do país colonizado (os SAPs), envolve a presa ideologicamente e pratica uma invasão cultural, além de impor valores sociais e muitas vezes utilizar força militar para dominar”.

Sem fronteiras, as corporações amealham terras, madeira, energia, minério, petróleo onde estiverem. Povos indígenas têm seus recursos naturais incorporados, poços, minas, água, quando não têm as terras transformadas em depósito de lixo e poluentes de indústria.

As corporações contam com as relações de promiscuidade que alimentam junto a governos nacionais para redemarcar reservas, expulsar os povos indígenas da terra, criar desculpas para removê-los. Contam ainda com o dinheiro das instituições financeiras internacionais para montar a infra-estrutura, e instaurar o “progresso”. Muitas vezes, os povos acabam seduzidos pela promessa de riqueza sem imaginar que um poço de petróleo ou uma mina de carvão possam acabar com a capacidade agrícola de uma comunidade, que a poluição será tamanha que as plantas não vão mais crescer, os jardins vão morrer e as frutas, se nascerem, vão apodrecer nas árvores. Isso acontece no México. Aconteceu no Equador, em 2000, levando 40.000 índios organizados pela Confederação de Povos Indígenas a realizar uma semana de protestos, incluindo uma marcha para Quito e outras cidades, contra as políticas de reformas do governo prescritas pelo FMI. “Políticas econômicas e de desenvolvimento do Estado e instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial, têm efeitos desastrosos sobre a paz e o bem-estar de mais de 500 milhões de indígenas por todo o mundo”, declarava o porta-voz do Congresso Nacional dos Índios Americanos, Rudolf Ryser.

No Brasil aconteceu isso quando o governo recebeu dinheiro do Banco Mundial, no início dos anos 80, para a construção da rodovia Polonoroeste, de 1.500 quilômetros, indo do sul do país ao noroeste. Era o “progresso” chegando. A área de floresta atingida foi do tamanho da França, 10.000 índios de quarenta nações diferentes foram afetados. Imensas fazendas de cacau e café, produtos de exportação, brotaram na região. A mortalidade infantil chegou a 50 por cento entre os indígenas atingidos por epidemias de gripe e sarampo. Mais de 250.000 índios e colonos pegaram malária. Para tentar controlar o desastre, o Banco Mundial emprestou mais dinheiro, usado na compra de 3.000 toneladas de DDT, pesticida proibido na Europa e nos Estados Unidos. Conflitos de terra pipocaram entre povos indígenas, seringueiros e fazendeiros. Sindicalistas e ativistas de direitos humanos sobreviviam em meio ao tiroteio. É quando morre Chico Mendes, em 1988. Diante disso tudo, povos indígenas decidiram entrar no movimento, tanto no Brasil como no mundo.

Mesmo a população americana está sendo afetada, afinal, capital internacional, corporação internacional têm pátria até a página cinco. O modelo não se importa se o dinheiro vem de trabalho escravo ou infantil, ou de um regime democrático ou fechado como o da China. Muitas vezes se desinteressa pelo próprio consumidor. “A Monsanto não deveria ter de garantir a segurança da comida biotecnológica. Nosso interesse está em vender tanto quanto possível. Assegurar segurança é papel da FDA”, declarava em 1998 Phil Angell, diretor de comunicações da corporação.

A miséria ronda os tais acordos de “livre comércio”. Um estudo do Economic Policy Institute, em 2001, mostrou que de 1991 a 1998 os salários caíram em 27 por cento no México, o rendimento do trabalhador por hora baixou em 40 por cento e o salário mínimo perdeu quase 50 por cento do poder aquisitivo. A Friends of the Earth (ONG antiglobalização presente em 62 países) e a Development GAP registraram que, “nos primeiros cinco anos de NAFTA, a assistência técnica e o crédito agrícola praticamente desapareceram na agricultura mexicana”. Em 1997, a Confederação Internacional de Sindicatos do Livre Comércio denunciou o regime de quase escravidão instaurado em algumas regiões depois dos acordos de livre comércio. Diz a Confederação: “A marca registrada da globalização econômica tem sido a Export Processing Zone, conhecida na América Central e México como ‘maquiladoras’. Esses novos campos de concentração permitem que companhias estrangeiras produzam com isenção de impostos, leis ambientais e trabalhistas. Uma média de 80 por cento dos trabalhadores nessas zonas são mulheres. A disciplina é severa e arbitrária e a violência sexual é comum”.

A desregulamentação trabalhista

No início dos anos 90, segundo Bruce Rich, diretor da Program at Environmental Defense em Washington, os rendimentos da população de 21 países caíram 20 por cento ou mais, principalmente no antigo império soviético. O um quinto mais pobre da população do mundo tem visto sua parte sobre o rendimento mundial cair de 2,3 por cento para 1,4 por cento nos últimos trinta anos.

O processo de desregulamentação trabalhista aconteceu no mundo e na própria casa dos Bill Gates. Em lugares onde as leis ainda dificultavam demissões e redução de salários surgiram projetos de reforma; o Brasil não tem exclusividade no tema. Segundo relatório da ONU de 1995 sobre desenvolvimento e comércio, empregadores mudam leis trabalhistas para tornar fácil a demissão de trabalhadores e para minar a capacidade de sindicatos de se defender, em vez de aumentar a capacidade produtiva e criar mais empregos. Uma pesquisa do Wall Street Journal, em 1992, mostrava que um quarto dos executivos de corporações admitiam estar dispostos a usar o NAFTA para puxar salários para baixo. Dados do censo americano de 2001 mostram que, de 1973 a 1999, o salário real do trabalhador americano sem curso universitário foi achatado para níveis tão baixos como os vigentes na Segunda Guerra Mundial. A escritora norte-americana Naomi Klein aponta a bizarrice de um sistema que achata salário e espalha desigualdade. Ela exemplifica com a poderosa Nike, que pagou para Michael Jordan mais por seus treinadores (20 milhões de dólares), em 1992, do que por toda a sua força de 30.000 trabalhadores na Indonésia.

Nossos vizinhos argentinos vinham esperneando fazia tempo, até que a revolta popular teve início ano passado. Já em 9 de junho de 2000, 7,2 milhões de trabalhadores faziam uma greve geral de 24 horas em oposição às reformas trabalhistas prescritas pelo FMI. O caldeirão continua borbulhando nos pampas, a população se manifesta quase diariamente contra a fome, miséria e desemprego em um dos países que mais seguiram o modelo neoliberal. Modelo que chegou completo. Lembram dos yuppies dos anos 80? Projetos deixam de ser coletivos para a busca do sucesso pessoal, do carro novo, da melhor casa no melhor bairro, do diploma com grife, assim como a calça e o sapato. Idealismo virou coisa fora de moda, ridícula. A ideologia do dinheiro invade até o amor. Atraente é ser agressivo, “chegar lá” a qualquer custo. Ambição tem mais valor do que ética. Casamento é para unir riqueza. Vida profissional vem antes da paixão. Em meio a um clima desses, quem acredita em sindicato, em união trabalhista? Talvez esse processo que reduz cidadão a consumidor, promovido pelo sistema, possa ser avaliado pelo declínio de mobilização no setor trabalhista nos últimos anos, principalmente no país maior exportador do modelo. “O número de trabalhadores sindicalizados nos Estados Unidos caiu de 24 por cento da força de trabalho, em 1973, para menos de 14 por cento em 1996” (Hirsch and Macpherson, Bureau of National Affairs, Inc., 1997).

Quando os argentinos saíram de novo às ruas, em dezembro último, gritando “o povo unido é o novo presidente!”, “fora a Suprema Corte!”, “não paguem a divida!”, “nacionalizem os bancos!”…, a estrutura sindical demonstrou dificuldades para apoiar a massa, que passou a se organizar em assembléias populares formadas entre vizinhos, nos bairros, abertas a qualquer um que quisesse participar, de empregado a desempregado. A jovem jornalista argentina Silvina Sterin, estudante de mestrado da New York University, estava nas ruas, dessa vez não em Buenos Aires, mas em Nova York, protestando contra o Fórum Econômico Mundial e as corporações. “Eles são os culpados pelo que está acontecendo com meu país e todos os outros países em desenvolvimento.”

Durante o Fórum em Nova York, Michael Letwin, presidente da Association of Legal Aid Attorneys e co-organizador do New York City Labor Against the War (NYCLAW), deu o seguinte recado aos manifestantes: “A globalização, de acordo com o povo do Fórum Econômico Mundial, é o sistemático dreno de vidas já miseráveis por todo o mundo, impedindo os povos de ter sindicatos, explorando o trabalho do trabalhador neste país e no exterior, por todos os lados. É por causa disso que, nos últimos trinta anos, os salários deste país vêm caindo repetidamente. Porque a globalização de hoje não acontece para o interesse da maioria, mas para alguns. Esse movimento deve continuar como uma aliança entre estudantes, comunidades, trabalhadores não apenas neste país, mas no mundo. Se continuarmos a fazer isso, irmãos e irmãs, teremos um mundo para nos orgulhar”.

O papel da grande mídia

Milhões de dólares são gastos direta ou indiretamente para divulgar a ideologia neoliberal. Anúncios de televisão, revistas e jornais incensam os mesmos conceitos em ritmo alucinante. A própria notícia de jornal sai da cabeça do pauteiro direcionada. Os sinais estão em cada página e em discursos publicitários de candidatos neoliberais a cargos públicos. “É preciso privatizar”, “vamos enxugar a máquina”, “serviço público é corrupto”, “ensino público favorece a elite”, “o país precisa se abrir para a modernização, o mercado internacional”, “vamos aumentar as exportações, a produção”…

O sociólogo filipino Walden Bello – diretor-executivo da Focus on the Global South – lembra da publicidade nazista quando fala da lavagem ideológica promovida por instituições neoliberais corporativas. “A necessidade da OMC é uma das maiores mentiras de nosso tempo e sua aceitação é ocasionada pelo mesmo princípio prático de Joseph Goebbels: a mentira repetida incessantemente torna-se verdade.” E conta a mentira: “Para vender a OMC ao sul, os propagandistas americanos evocaram o medo: ficar fora da OMC resultaria em isolamento do comércio mundial, e alimentaram a promessa de que ‘um sistema baseado em regras’ de comércio protegeria países fracos de atos unilaterais executados pelos grandes e poderosos”.

Os movimentos antiglobalização mostram que a briga apenas começou a esquentar. Eles não suportam a imprensa dos poderosos. Proíbem a grande mídia de entrar em muitos dos eventos que promovem. “Ela distorce tudo, e sabemos que mais tarde isso pode ser usado contra a gente”, explica Ehssan Vandaei, o estudante anarquista de Berkeley.

Escreveu o colunista Cragg Hines da revista Time: “Me desculpe se não choro pelo jovem que foi baleado na cabeça (Carlo Giuliani, em Gênova) pela polícia durante o encontro econômico.” Ele continua: “Isso foi trágico, mas ele pedira por isso e levou”.

A cineasta e antropóloga brasileira Joana Benetton Junqueira dirige em Londres um documentário sobre a forma como a chamada grande imprensa e a imprensa alternativa retratam os movimentos antiglobalização. “A grande imprensa tenta transmitir a idéia de que as pessoas que estão protestando são um grupo pequeno de anarquistas que só estão aí para fazer bagunça. A mídia alternativa tenta mostrar outros lados, mas falha na forma de abordar as questões e mobilizar as pessoas.” Ela cita um exemplo. “A mídia independente não consegue colocar a questão da legitimidade da polícia de Nova York para o público: ‘Pô, estou pagando imposto para eles protegerem starbucks (cadeias comerciais como McDonald’s, Wal-Mart, corporações-símbolo do inimigo para o movimento) ou o Waldorf Astoria?'”

Conversei em Nova York com Amy Goodman, lenda viva da imprensa alternativa americana. Ela apresenta e dirige o programa nacional de rádio Democracy Now, transmitido pela Pacifica Radio, “a única mídia independente network deste país”, explica. “A mídia corporativa é simplesmente um megafone para esses que estão no poder. Conforme Noam Chomsky diz: ‘Eles tentam fabricar consentimento para esses que estão no poder’. Precisamos de uma mídia não para fazer parte do governo, mas para desafiar o governo, para ser exceção diante dos soberanos. Não estaríamos no Afeganistão para aplaudir esta administração”. Pergunto: “Gente como a do Fórum Econômico Mundial tem mesmo esse poder todo de pressão para reprimir a mídia?” Ela responde: “Eles têm poder desde que as pessoas não se unam contra eles. Mas, tão rápido as pessoas comecem a se juntar, como vimos em Seattle, em Quebec, em Gênova, como estamos vendo nesses protestos antiglobalização por todo o mundo… Nada se compara à força do povo”.

Yin Shao Loong, da Malásia, pesquisador da rede antiglobalização Third World Network, diz que “a globalização pode ser vista na paisagem através de grandes edifícios, grandes casas, o consumo exagerado, em meio à pobreza. Mercado livre, para a maioria, é a liberdade de querer o que não pode, o que não tem”. Os movimentos antiglobalização têm muito do que reclamar, mas o inimigo é forte, muito forte.

O império e quem ganha com ele

Levantamento do Institute for Policy Studies, Top 200: The Rise of Corporate Global Power 2000, informa que, “das maiores cem economias do mundo, 52 agora são corporações, apenas 48 são países”. A pesquisa mostra o pódio das maiores: “A Mitsubishi é a 22ª maior economia do mundo. A General Motors é a 26ª. A Ford é a 31ª. Todas são economias maiores do que a da Dinamarca, Tailândia, Turquia, África do Sul, Arábia Saudita, Noruega, Finlândia, Malásia, Chile e Nova Zelândia”. O mesmo estudo contabiliza que “em 1999 o valor de vendas das corporações General Motors, Wal-Mart, Exxon Mobil, Ford Motor e Daimler-Chrysler, em separado, foi maior do que o PIB de 182 países. O valor das vendas das duzentas maiores corporações cresce mais rápido do que a economia global”. No entanto, diz a pesquisa, essas “duzentas maiores corporações do mundo, responsáveis por quase 30 por cento da atividade da economia global, empregam menos de 1 por cento da força de trabalho do mundo. Enquanto o lucro delas cresceu 362,4 por cento entre 1983 e 1999, o número de empregos cresceu apenas 14,4 por cento. Essas companhias, ao comprar competidores, eliminam empregos duplicados”, encerra o trabalho. As mil companhias mais ricas do mundo controlavam mais de 80 por cento da produção industrial do planeta, apurou o veterano correspondente internacional americano Robert Kaplan (The Atlantic Monthly, em 1997).

Estudo da Rural Advancement Foundation International, The ETC Century, 2001, encontrou o mesmo tipo de concentração de poder e renda na indústria de remédios: “Vinte anos atrás, as vinte maiores companhias farmacêuticas eram responsáveis por 5 por cento do comércio de drogas sob prescrição, no mundo. Hoje, as dez maiores controlam 40 por cento do mercado”. O mesmo estudo mostra o que aconteceu na indústria de implementos agrícolas. “Vinte anos atrás, 65 companhias de químicos agrícolas competiam no mercado mundial. Hoje, nove companhias detêm aproximadamente 90 por cento das vendas de pesticidas, 90 por cento das novas tecnologias e patentes de produtos estão nas mãos de corporações globais.”

Nem imposto sobre toda essa riqueza precisam pagar. “Nos Estados Unidos, a porcentagem de impostos pagos por corporações sobre o rendimento caiu significativamente de 25 por cento pagos nos anos 60 para 9 por cento pagos nos dias atuais” (Reuven Avi – Yonah, The American Prospect, 2000).

Relatório da ONU, de 1999, contabiliza que “a diferença entre o rendimento do um quinto da população do mundo vivendo nos países mais ricos para o um quinto vivendo nos países mais pobres dobrou de 1960 para 1990. Em 1998, a relação aumentou de novo”. O mesmo documento informa que a riqueza das “duzentas pessoas mais ricas do mundo aumentou de 40 bilhões para mais de 1 trilhão de dólares de 1994 para 1998”. Mais: “Os ativos das três pessoas mais ricas do mundo são maiores do que o PIB dos 48 países mais pobres juntos”. O documento diz ainda que “o número de bilionários no mundo tem aumentado em 25 por cento nos últimos dois anos. A soma da riqueza dos 475 indivíduos mais ricos é maior do que o rendimento de metade da população do mundo. O quinto mais rico das pessoas do mundo consome 86 por cento de todos os bens e serviços, enquanto o quinto mais pobre consome apenas 1 por cento”.

“A expectativa de vida nos países mais pobres é 25 anos menor do que a dos países industrializados”, afirmava ano passado Kevin Watkins, consultor sênior de política da Oxfam, uma confederação de vinte ONGs trabalhando em oitenta países em busca de soluções para a pobreza. Em abril de 2000, o G-77, formado pelos 77 países mais pobres do mundo, editava uma declaração condenando o FMI e o Banco Mundial e apoiando os protestos dos movimentos antiglobalização.

O globalitarismo na prática

O militarismo ajuda a manter o status quo e a alargar fronteiras. É preciso muita polícia para segurar a massa esfomeada, e o desejo de consumir. É preciso um exército para alinhar países que ainda não se adequaram ao “livre mercado”, à “democracia” do Oeste. O líder antiglobalização e antiguerra, filho de vietnamitas imigrantes, Hoang Phan, 25 anos, explica: “Interesses econômico e militar vão sempre lado a lado. É por isso que criamos em Berkeley os movimentos anticapitalismo e antiguerra”. Ele faz doutorado em literatura na Universidade de Berkeley e milita no grupo Left Turn, uma coalizão que reúne socialistas e anarquistas. Os detalhes ideológicos ficam para depois, o importante é derrotar o inimigo imediato primeiro. Para a socióloga Amory Starr, a própria guerra com o Afeganistão pode servir aos interesses de corporações. “Eles estão usando isso para tornar o Afeganistão um trampolim à penetração na Ásia Central, para forçar Coréia do Norte, Iraque e Irã para dentro da economia global e mantê-los alinhados.” O estudante sul-africano Craig Webster teme pela segurança do movimento. “Estamos assistindo ao desenvolvimento de uma operação militar global de segurança que pode eliminar os movimentos de resistência. Agora são os muçulmanos fundamentalistas, depois os guerrilheiros na Colômbia, depois vai ser alguma outra resistência.”

Mas a polícia que controla e mantém a desigualdade não aparece só em forma de exército e vigia de rua, existem também os inspetores de imigração do Primeiro Mundo, os guardas de fronteira, os patrulheiros…

O sistema discriminatório da globalização constrói os mundos completamente diferentes do sul e do norte. E, quando alguém consegue cruzar a fronteira, vira cidadão de segunda no Primeiro Mundo. “Estão usando os imigrantes como mão-de-obra barata, não reconhecem os nossos direitos”, diz o líder zapatista Ricardo Juárez, membro do Comité Zapatista de los Pasamontañas, Estados Unidos. O movimento é internacional para combater o inimigo transnacional. A forma de luta varia conforme a cidade, o clima, a polícia, o número de pessoas. Grupos da Igreja Católica, muçulmanos, feministas, gays, lésbicas, grupos de direitos humanos, hackers (que buscam quebrar sistemas de informática de grandes corporações), movimentos pela libertação da Palestina, sem-terra, punks, ecologistas, associações pelo direito do preso, grupos de luta contra a AIDS que pregam o fim de patentes sobre remédios contra HIV etc. etc. Esses antiglobalizadores são criativos e mudam como camaleão. Podem se apresentar para a luta também na forma tradicional, fazendo debates e conferências, como a campanha The Public Eye on Davos lançada pela ONG Berne Declaration. The Public Eye on Davos não deixa de ser um pequeno fórum social mundial de discussões e conferências nas mesmas datas do evento de Porto Alegre, só que acontece onde o Fórum Econômico estiver.

Mas as formas de ação direta é que são as armas e as marcas do movimento antiglobalização. O cientista político nicaragüense Luis Fernández, que prepara seu doutorado sobre os grupos antiglobalização, explica: “Ação direta não significa necessariamente ação violenta, como quebrar uma janela. É uma filosofia anarquista que diz que não se pode apenas falar, ficar na teoria, no academicismo, é preciso agir nas ruas, se confrontar com a polícia, bloquear reuniões”. Ano passado, o grupo Friends of the Earth resolveu tentar uma tática nova contra o Fórum Econômico Mundial. Quem conta essa historia é a cineasta-antropóloga Joana Benetton Junqueira. “Vestiram-se com ternos Yves Saint Laurent, sapatos superchiques, anéis de ouro, fizeram cortes de cabelo especiais, a pompa toda, casacos maravilhosos… e ligaram para toda a imprensa falando o que iriam fazer: ‘Olha, a gente está se vestindo desse jeito para provar que existe discriminação e vamos tentar passar as barricadas sem crachá’. Então, o que aconteceu? A imprensa já estava toda lá, esperando, e não é que eles chegam, cruzam as barreiras, os carros, seguranças, ninguém pede nada, a barricada se abre inteirinha, tiraram todos os carros para que eles passassem, e passaram. Foram até a reunião. Chegando lá, começaram a distribuir panfletos, distribuíram até para o Iasser Arafat, sobre a questão do aquecimento da Terra. Aí foram percebidos: ‘Quem são esses caras distribuindo panfleto?’ Ficaram presos por algumas horas. Foi muito engraçado. Bom para mostrar como hoje em dia a roupa é mais importante.”

Vale sentar no chão amarrados uns aos outros, bloquear cruzamentos, quebrar janela de alto executivo de indústria, invadir terreno urbano abandonado para fazer jardinagem, ou provocar os Bush, como fez a estudante de história da Columbia University, Ginger Gentile, de 21 anos. “Usamos uma porção de ação direta na posse do presidente Bush.” Que tipo? “Quando a comitiva presidencial passou, viramos nossas bandeirinhas dos Estados Unidos para baixo, esticadas, sinal que é feito quando o navio está afundando. Havia centenas de guarda-costas e eles vieram pra cima da gente, mas o grupo dividiu a polícia e escapou. Foi uma bagunça; tinha um monte de bandeiras viradas para baixo. Impressionante foi que a grande mídia não cobriu nada. Mostraram que a maioria do público estava feliz, quando a maioria era contra o presidente.” Ano passado, Ginger fez turismo de ativista e conheceu de perto as sweatshops (linhas de montagem em regime de quase escravidão) da Indonésia. Este ano dedica-se a ajudar imigrantes.

O estudante Ehssan Vandaei, de Berkeley, pagou pela fama das ações diretas mais radicais promovidas pelos que se vestem de preto, formando o black block em algumas das passeatas antiglobalização. Ele precisou abrir a mala quando cruzava a fronteira para protestar em Quebec. “Eles contavam o número de peças pretas que tínhamos. Por causa disso, paramos de vestir preto. Não é necessário. Vista o que você quiser; se você continua anarquista, continua a lutar, não precisa vestir nada para se sentir mais forte ou melhor.”

As vitórias do movimento antiglobalização estão acontecendo a todo o momento. Diz Amory Starr: “A derrota do fast track no Congresso, por exemplo, essa legislação que permitia ao presidente negociar conteúdos dos Acordos de Livre Comércio independentemente do próprio Congresso. Mandamos embora a OMC – eles tiveram de fazer as últimas reuniões em Doha, capital de Catar, em novembro, onde não existe a permissão, o direito ao protesto. Os encontros do FMI em Washington para este outono já foram cancelados. Eles estão claramente fugindo de espaços democráticos. O G-8 também está tentando ir para uma remota cidade nas montanhas. A mudança de linguagem, no discurso, é outro sinal. Eles fingem que não foi por nossa causa, que não sabem que estamos ali fora, mas estão prestando atenção. O que quero dizer é que somos uma ameaça. Essa é uma indicação de que estamos indo bem. Naomi Klein diz que eles estão entrando numa cultura sadomasoquista, a elite global está se tornando sadomasoquista. Eles se juntam e fazem uma porção de discursos de autoflagelação, de como a economia global não sobreviverá a menos que eles a reformem. E agora têm convidado críticos aos abusos praticados pelas corporações; o Fórum Econômico Mundial convidou a Anistia Internacional para os encontros em Nova York. Mas, a mais importante indicação do nosso sucesso é a construção de uma solidariedade global, da extensão da luta para uma enorme diversidade de movimentos por todas as classes e linguagens. Ninguém tinha pensado que a gente pudesse derrotar o capitalismo, podemos tentar, certo?”

Fonte: Caros Amigos nº 64, julho de 2002.

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